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O bloqueio de Orbán e a crise da UE

(Roberto de Mattei, Dies Iræ, 25 novembre 2020)

Estamos a aproximar-nos do trigésimo aniversário, mas talvez também da dissolução, da União Europeia, nascida do Tratado de Maastricht, de 7 de Fevereiro de 1992.    

Este acordo previa a livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais dentro de uma “Europa sem fronteiras” e a criação de uma “zona euro” dotada de um Banco central e de uma nova moeda única. Para fazer parte desta zona euro, foi aprovado, em 1997, um Pacto de Estabilidade e Crescimento que impunha, aos países membros da União Europeia, dois rigorosos parâmetros: um défice orçamental inferior a 3% do PIB e uma dívida pública inferior a 60% do Produto Interno Bruto. O Tratado de Lisboa, de 13 de Dezembro de 2007, definiu os poderes e os objectivos políticos da União Europeia.          

Em quase trinta anos, nem os objectivos políticos, nem os económicos da União foram jamais realizados, e a instituição supranacional, artificialmente criada na cidadezinha holandesa, iniciou um inexorável processo de desmoronamento, que teve uma clamorosa expressão no Brexit do Reino Unido, a 31 de Janeiro de 2020. Mais ou menos nos mesmos dias, um ciclone atingiu a União Europeia, derrubando os seus princípios. A erupção do coronavírus na cena geopolítica global forçou os Estados europeus a impor fortes restrições à liberdade de circulação dos próprios cidadão. As fronteiras, até ontem consideradas elementos de obstáculo e de divisão a ultrapassar, revelaram-se insubstituíveis factores de defesa e de protecção dos cidadãos. A Europa, interna e externamente, demoliu as pontes e reergueu os muros.         

Além disso, em Março de 2020, com uma decisão inédita, a Comissão Europeia suspendeu o Pacto de Estabilidade, permitindo que países como a Itália se endividassem e injectassem liquidez nas próprias economias. A política económica e monetária europeia rebentou e, agora, o Comissário para a Economia, Paolo Gentiloni, evoca a possibilidade de o Pacto de Estabilidade ficar suspenso até 2022 (La Stampa, 11 de Novembro de 2020). A isso junta-se que, para fazer face à nova situação criada pela pandemia, a União Europeia previu um plano de endividamento público dos Estados, baseado num orçamento septena de 1.150 biliões de euros e num fundo europeu de recuperação de 750 mil milhões de euros (o Recovery Fund). Esta proposta, porém, requer unanimidade para ser aprovada e dois Estados, a Hungria e a Polónia, a que se juntou a Eslovénia, opuseram o seu veto, bloqueando o projecto. A razão do veto húngaro e polaco reside no facto de o plano de assistência financeira introduzir um mecanismo através do qual a Comissão poderá bloquear a distribuição de fundos aos Países que não respeitem o Estado de direito, ou seja, que cometam «violações dos valores fundamentais como a liberdade, a democracia, a igualdade e o respeito pelos direitos humanos, incluindo os direitos das minorias». Isto significa a activação de processos de infracção e de condenações para quem não segue a política de abertura aos novos direitos, desde o aborto à imigração sem controlo, que a União Europeia pretende impor aos seus Estados membros. O Tribunal de Justiça da União Europeia já condenou a Hungria pelas suas leis sobre as ONG’s, que preveem a prisão para quem assiste os migrantes chegados ilegalmente à Hungria, e pela chamada “legislação anti-Soros”, que introduziu uma série de restrições às universidades estrangeiras na Hungria, como a Open Society do pseudo-filantropo húngaro-americano. Numa intervenção, publicada pelo Sole 24 Ore, Soros definiu o veto colocado pela Hungria e Polónia à proposta da UE, sobre o Recovery Fund, como «a jogada desesperada de dois transgressores em série». Os dois criminosos, de acordo com Soros, seriam Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro, e Jarosław Kaczyński, governante polaco de facto. Orbán respondeu prontamente: «George Soros ameaça a Hungria e a Polónia»; «é uma das pessoas mais corruptas do Mundo; tem muitos políticos no bolso que, agora, querem chantagear a Hungria e a Polónia pelo acesso aos fundos da UE». Orbán afirmou, então, que, «hoje, em Bruxelas, consideram apenas os países que permitem a entrada de migrantes como governados pelo Estado de direito. Aqueles que protegem as suas fronteiras não podem ser considerados países onde prevalece o Estado de Direito. Uma vez adoptada esta proposta, não haverá mais obstáculos para ligar a quota dos fundos comuns dos Estados-Membros ao apoio à migração e ao uso de meios financeiros para chantagear os países que se opõem à migração».          

A agressão das chamadas “potências fortes” europeias contra Orbán teve início quando, em 2012, entrou em vigor a nova Constituição húngara, que considera a família como «a base da sobrevivência da nação», afirma que «a Hungria protegerá a instituição do matrimónio entendido como a união conjugal de um homem e de uma mulher» e proclama que «a vida do feto será protegida desde o momento da concepção» (Roberto de Mattei, in Radici Cristiane, n.º 72 – Fevereiro/Março de 2012). Orbán não é católico, mas, como escreve Giulio Meotti, na Europa «existe um único defensor dos cristãos perseguidos: o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, a quem a grande media adora provocar e atacar. Nenhum outro governo europeu investiu tanto dinheiro, diplomacia pública e tempo nesta questão» (Giulio Meotti, in Gatestone Institute, 15 de Dezembro de 2019).         

De todos os chefes de Estado ou de governo europeus, Orbán é o que mais vigorosamente combate a ditadura do relativismo e é, portanto, considerado a besta negra dos lobby globalistas que, hoje, o acusam de se opor aos seus planos usando a situação de emergência causada pelo coronavírus  Em Março passado, de facto, impôs um primeiro bloqueio ao assumir plenos poderes na Hungria. Em Novembro, anunciou um novo estado de emergência, que durará até 8 de Fevereiro. O arquipélago LGBT acusa-o de ter aprovado, neste ano, uma lei que impede os transexuais de mudarem legalmente de “género” e de querer aproveitar o coronavírus para aprovar novas leis em defesa da identidade religiosa e nacional do seu povo. Num momento em que todos tentam tirar partido da pandemia, Orbán usou a “ditadura sanitária” como instrumento eficaz para travar os planos europeístas. Na Hungria, o bloqueio não se revelou, assim, um instrumento do globalismo, mas um meio para se opor à revolução globalista que quer impor o caos planetário.          

Entre os efeitos do coronavírus, também será necessário colocar a desintegração da União Europeia, o regresso dos Estados-nação e a possibilidade para se fazer ouvir mais alto a voz dos políticos europeus que pretendem defender os valores naturais e cristãos. Talvez seja necessário procurar nos acontecimentos, ao lado dos planos dos homens, também aqueles de Deus que, de modo misterioso, mas eficaz, intervém sempre na história… 

Fonte: Dies Iræ

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