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Roberto de Mattei mantém sua posição – Um Papa “imprudente” que “traiu seu Concílio”.

(Roberto de Mattei, FratresInUnum.com, 21 dicembre 2017)

Em uma recente entrevista ao mensário “Catholic Family News”, o senhor sustentou que em matéria de canonizações a Igreja não é infalível, e que, portanto, a de Roncalli é legitimamente criticável, porque o pontificado de João XXIII representou um “objetivo dano à Igreja”. Isto resume em poucas palavras a questão da infalibilidade?

A canonização de um Papa implica a sua santidade não só na vida privada, mas também na vida pública, ou o exercício heróico da virtude no múnus que lhe é próprio, o de Sumo Pontífice. Como autor de uma história do Concílio Vaticano II, estudei o breve pontificado de João XXIII, de 28 de outubro de 1958 até sua morte em 3 de junho de 1963, e estou convicto de que ele não exerceu de modo heróico a virtude cristã, a começar pela virtude da prudência. Isto põe naturalmente um problema. Alguns tradicionalistas pretendem resolver a questão de maneira simplista: uma vez que João XXIII não foi um bom Papa e é canonizado, isto quer dizer que quem o canoniza hoje não é verdadeiro Papa. Estou muito distante desta posição. A infalibilidade das canonizações é uma tese majoritária entre os teólogos, mas não é um dogma de fé, e a opinião contrária pode ser legitimamente admitida. Ao contrário, é dogma de fé que não pode haver contradição entre a fé e a razão. Uma análise objetivamente racional dos fatos demonstra a falta de heroicidade de virtude do Papa Roncalli. Se, por fideísmo, eu devesse negar aquilo que a razão impõe, abalarei as bases racionais de minha fé. Mantenho, portanto, em boa consciência, as minhas dúvidas e as minhas perplexidades sobre a canonização de João XXIII.

O Padre Lombardi, na sua conferência de imprensa de 22 de abril, declarou que negar a infalibilidade das canonizações significa acreditar que os Papas canonizados estejam no inferno.

Creio que isso foi uma brincadeira do Pe. Lombardi. É óbvio que não ser elevado à glória dos altares não significa que se vá para o inferno. Caso contrário, deveríamos crer que pouquíssimos Papas, e menos ainda fiéis, se salvam! Só Deus conhece a sorte das almas após a morte. O que ponho em dúvida não é a salvação eterna de João XXIII, mas a heroicidade de suas virtudes no governo da Igreja. Acrescento que negar a infalibilidade das canonizações não significa afirmar que elas são geralmente falsas ou erradas. Acredito, ao contrário, que a Igreja não erra quando proclama os santos e os beatos, mas que pode haver casos concretos excepcionais, que não contradizem a regra. E hoje vivemos um momento excepcional da história da Igreja. 

O objetivo “dano à Igreja” causado pelo Papa Angelo Roncalli, do qual o senhor falou na mencionada entrevista ao “Catholic Family News”, resume-se na sua opinião somente no fato da convocação do Concílio Vaticano II, com o que resultou daí para a Igreja universal, ou há outros? Alguns dias atrás, no “Corriere della Sera”, o filósofo americano Michael Novak, não propriamente um católico progressista, desenhou um perfil lisonjeiro da santidade pessoal de Roncalli, sublinhando que “a força espiritual do Papa João era uma constante em sua vida e foi sentida pelos Padres Conciliares também durante a Segunda sessão do Concílio, após o seu desaparecimento.” E seu trabalho anterior, como diplomata do Vaticano, é geralmente apreciado pelos historiadores. Ou mesmo a Pacem in Terris – a encíclica de 1963 que trata de temas por assim dizer não doutrinários, mas de natureza histórico-política –, em um momento crucial da conjuntura geopolítica, com a volta da Guerra Fria, deve ser contada entre os “danos objetivos” do pontificado?

Deixemos de lado a “santidade pessoal” de Roncalli, sobre a qual eu me permito ter sérias dúvidas, e comecemos a partir do Concílio Vaticano II. A convocação de uma assembleia de tão vasto porte era uma decisão de longo alcance que não podia ser tomada açodadamente, mas pressupunha profunda reflexão e ampla consulta. Isso aconteceu quando Pio IX decidiu convocar o Concílio Vaticano I e quando Pio XI e Pio XII haviam examinado a possibilidade de retomar o trabalho, mas depois ambos resolveram abandonar o projeto. O mesmo, porém, não aconteceu com João XXIII, que anunciou inesperadamente a convocação do Concílio, apenas três meses após sua eleição, sem falar com ninguém. Ele estava portanto convencido de que o Concílio resolveria, em poucos meses, alguns problemas puramente pastorais. “No Natal poderemos concluir”, disse ele ao Cardeal Felici às vésperas da abertura. Isso mostra, no mínimo, uma falta de tino na previsão .

O Concílio Vaticano II se revelou depois, além das intenções do Pontífice, uma catástrofe objetiva em muitos campos. Cinjo-me a citar um: a falta de condenação do comunismo. Um Concílio que pretendia ser pastoral silenciou sobre a questão mais dramática de sua época: o imperialismo soviético, que ameaçava o mundo. Enquanto Moscou instalava seus mísseis em Cuba e o Muro de Berlim era erguido no coração da Europa, o Papa João XXIII, no verão de 1962, através do cardeal Tisserant, concluiu um acordo com o Patriarcado de Moscou, comprometendo-se a não falar do comunismo no Concílio. A última encíclica do Papa João XXIII, Pacem in Terris, de 9 de abril de 1963, abriu as portas para uma colaboração entre católicos e comunistas. Ela foi publicada no dia seguinte à audiência pessoal concedida pelo Papa a Alexej Adjubei, diretor do “Izvestia”, mas sobretudo genro de Kruchev e seu embaixador privado. Esta reunião não levou a qualquer conclusão substancial, mas teve um impacto extraordinário na mídia. Na Itália, as eleições de 28 de abril de 1963 viram um forte avanço do Partido Comunista e um declínio igualmente significativo dos democrata-cristãos. Para os comunistas, o Papa João era o “Papa bom” e o Vaticano II era identificado como o “Concílio da Paz”. Tampouco neste caso me parece que João XXIII tenha praticado heroicamente a virtude da prudência. E, no caso das canonizações, as virtudes heróicas devem ser todas, não podendo ser escolhidas de forma seletiva.

Existem outros elementos que possam, na sua opinião, afetar a santidade do Papa João XXIII?

Em seu pontificado, o Papa João XXIII não demonstrou grande espírito sobrenatural. Lembro dois episódios.

O primeiro é a sua recusa de fazer conhecer ao mundo o Terceiro Segredo de Fátima, apesar dos pedidos de Nossa Senhora à Irmã Lúcia. João XXIII tomou conhecimento dele no verão de 1959, mas preferiu não divulgá-lo. O Papa Roncalli decidiu adiar a difusão do texto, porque havia um forte contraste entre a Mensagem apocalíptica de Fátima e o otimismo com que ele estava prestes a inaugurar o Concílio Vaticano II.

O segundo episódio é a incompreensão pela figura espiritual do Padre Pio de Pietrelcina, mais tarde beatificado e canonizado por João Paulo II. O Padre Pio sofreu no decurso de sua vida inúmeras incompreensões e calúnias, pelas quais teve que passar por investigações canônicas humilhantes. Entre elas esteve a que foi promovida pelo Papa João XXIII, quem enviou, de 13 de julho a 2 de outubro de 1960, como visitador apostólico a San Giovanni Rotondo, Mons. Carlo Maccari, então secretário do Vicariato de Roma. Esse período será lembrado como aquele da mais dura perseguição contra o santo de Pietrelcina. João XXIII nunca entendeu a santidade do Padre Pio.

O Cardeal Siri lembra de uma piada que João XXIII fez quando ele foi eleito: “Eu de questões doutrinárias não me ocuparei, porque Pio XII já fez tudo.” Segundo o senhor, ele não cumpriu esse compromisso? Neste caso, o que “mudou” de essencial na doutrina católica?

Essa piada me lembra a do Papa Francisco, segundo a qual ele jamais entendeu o termo “valores não negociáveis​​”. São frases perigosas, porque parecem acreditar num primado da praxis sobre a doutrina. João XXIII não modificou a doutrina católica, mas a prática pastoral. Porém, a modificação da praxis comporta inevitavelmente uma alteração da doutrina.

Uma prova disso é o relatório do cardeal Kasper no último Consistório extraordinário. A tese de Kasper é a de que, uma vez que no tema dos divorciados recasados existe um abismo entre a doutrina da Igreja e a prática da moral dos católicos, é necessário adaptar a doutrina ao comportamento hoje difundido.

Este princípio de adaptação da prática está resumido no discurso Gaudet Mater Ecclesiae, com o qual em 11 outubro de 1962 o Papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II.

Um aspecto sempre silenciado de Roncalli é, por exemplo, que apesar de progressista, ele acreditava firmemente na centralidade do latim na liturgia forjada sobre o canto gregoriano. Sua Constituição Apostólica “Veterum Sapientia” de 1962, sobre estes temas, devem agradá-lo. Então, o que aconteceu? E se, ao contrário do que repetem os “bolonheses” (grosso modo: o Concílio de Roncalli “traído”, num sentido antiprogressista, por Montini), tivesse sido o oposto? O Concílio “pacelliano” traído em seguida pelos progressistas?

Sem ser um conservador, João XXIII tinha indubitavelmente uma sensibilidade conservadora e não gostava da reforma litúrgica que Mons. Aníbal Bugnini já havia começado a promover no pontificado de Pio XII. A Constituição apostólica Veterum sapientia, de 22 de fevereiro de 1962, constitui uma firme e inesperada resposta aos promotores da introdução do vulgar na liturgia. Nesse documento João XXIII sublinhava a importância do uso do latim, “língua viva da Igreja”, recomendava que as disciplinas eclesiásticas mais importantes deveriam ser ensinadas em latim (no. 5) e que a todos os ministros da Igreja Católica, do clero tanto secular quanto regular, fosse imposto “o estudo e o uso da língua latina”. Com essas medidas João XXIII se mostrava claramente descontente com o caminho tomado pela Comissão litúrgica. Mas depois nada fez para vigiar a aplicação de tal documento, o qual se pode dizer que evaporou no ar.

Em resumo, o senhor retorna ao seu julgamento de no mínimo “imprudência” de Roncalli na abertura e na gestão do processo conciliar. No entanto, do ponto de vista histórico, deve-se notar um aspecto crucial de continuidade com um percurso já iniciado na Igreja e também conduzido pelo Papa Pio XII. É um fato que a Mystici Corporis de Pacelli é considerada a base sobre a qual ele construirá a constituição dogmática Lumen Gentium. E é um outro fato que foi a Divino Afflante Spiritu, do ano 1943, que deu impulso aos estudos histórico-críticos das Escrituras, os quais tiveram tanto papel no Vaticano II e também em certos riscos de ‘protestantização’ do catolicismo. Mesmo a reforma litúrgica que virá com a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium foi estimulada por Pio XII, extremamente sensível, como o senhor sabe, à matéria. Então, a ‘”imprudência” de Roncalli não nasceu do nada. Então, o que aconteceu na sua opinião?

É evidente que existe uma continuidade, ou coerência, entre certas idéias já estabelecidas pelo Papa Pio XII e o ponto de partida de Roncalli. E que há continuidade no trabalho de elaboração dos “Esquemas preparatórios” do Concílio. O problema é que tudo isso se interrompe, não “depois” ou na metade do Concílio, mas imediatamente. Quando se fala de “traição” do Concílio, está dito que o que foi traído foi o Concílio preparado pela comissão romana, cujos esquemas de constituição, aprovados pelo Papa Roncalli, foram atirados ao lixo com um verdadeiro golpe de mão, em outubro de 1962, logo após a inauguração da assembléia. João XXIII foi o primeiro a trair o seu Concílio.

Fonte: FratresInUnum.com

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